terça-feira, 11 de novembro de 2008

Prisma

O verde era o mais bonito
Na época em que os pais e os amores valiam mais que a coloração de ser

Mas desbotou o tempo...
E os momentos espalharam aquarelas...
Deslocaram-se as matizes primarias que residiam nos amores.
E os pais deixaram de ter o tom da verdade absoluta.

A luz incidiu e as cores se tornaram tantas
Que a solidão do verde se tornou sorumbática.

Quando um dia eu nascer uma árvore

Quando um dia eu nascer uma árvore
Talvez o céu não pareça tão distante.
Mas o chão será um dominante, não um dominável.

Para não ser inefável, eu seria um Flamboyant.

Quando um dia eu crescer uma árvore...
O meu mundo será explodido de uma semente
Bastar-me-á água e sol, somente, para felicidade estável.

Para ser explicável: uma chuva e depois um dia quente.

Quando um dia eu viver, como árvore
Dos pássaros, serei sempre ouvinte.
E ainda terei o requinte de me sentir habitável.

Porque o som me será palpável: através do vibrante, tininte.

Quando um dia eu reproduzir como árvore
O mundo será um circular horizonte
E o vento será a minha ponte com o semeável.

No mesmo lugar [estável], farei terras parirem monte.

Quando um dia eu for uma árvore
E morrer. E deixar de ser sombra ao transeunte
A terra fará um ajunte do meu potencial adubável

E na essência permutável terei a certeza que eu não defunte.

domingo, 19 de outubro de 2008

Sobre tristezas, cantos e sonos.

Cada melancolia tem lá seu tono.
Rigidez vai embora com canto.
A cantiga dessa tristeza é o sono.
Se dormir é cantar: acalanto.

Se dormir fosse fácil...

Dormir é fugir do abandono.
É morrer. Morto, sem pranto.
Mesmo que o som seja mono,
dormir é cantar, tem encanto.

...mas dormir não é fácil...

Dormir... não pagar o abono
da tristeza. E mais tanto.
Encanto. Cantiga. E sonho.
Fluidez. Fuga. Acalanto.

...adormecer é difícil, entretanto.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

As borboletas nunca são achadas

As borboletas nunca são achadas pelas flores.
São elas que escolhem nas quais pousar.
E saem por aí provando
até encontrar o gosto da perenidade...

...e toda flor tem gosto de fugacidade.

As borboletas nunca são pousadas pelas flores.
São elas que escolhem o tempo do namoro
ou o instante de adejar.
E semeiam, a sua escolha, a felicidade...

...e são as flores que ficam com a saudade.

As borboletas nunca sofrem as partidas.
Podem sempre retornar, se quiserem re-pousar,
à seus portos petalados.
E misturar com as flores as cores das aquarelas.

E a flores reviverão as partidas dessas asas tagarelas

As borboletas nunca são achadas.
Mesmo que as flores se espichem em talos até o sol,
continuarão enraizadas
até a gravidade despetalar para si todas as sortes.

Mas até as borboletas têm seus tempos de morte.
E nem tudo se sabe sobre vôos e raízes.

E o que as borboletas não sabem
é que certas flores se desprendem ao ar em cata-ventos
com suas levezas.
Viajando com o vento, ou pairando com a sua ausência.

E o que as flores não sabem
É que as borboletas nem sempre têm forças contra os ventos
Fragilidades de suas naturezas
Por isso carregam consigo o perfume das flores, em essência.

O vento leva, e as borboletas nunca são achadas.
Mas força ele não tem, para fazer as flores serem alçadas.

sábado, 30 de agosto de 2008

Copular

O peso e o contrapeso do corpo.
O balanço do encontro, o encaixe
que alcança e abarca o outro
Corpo:
o contra-corpo do peso racional se perdendo em meio a afetos.
Os seres embarcando no sensorial.
O encontro, o encaixe, o balanço
barco existente entre os picos
do que é sensório e do que é racional.

O despencar das nuvens

Seu juízo não gostava de chuva.
Nunca gostou.
E foi numa dessas noites de tempestade que se perdeu nas águas da irracionalidade.
O juízo? [oh juízo!]
Decidiu permanecer em casa, agasalhado.
E ela se lançou louca por entre os pingos...
Bebeu da nuvem dilacerada, embriagou-se de êxtase e deixou fluir impulso.

Cantou, falou, riu... [aliás, gargalhou]
desnudou-se.
E amou sem escrúpulos aquele corpo molhado que, por acaso, a acompanhara em tempestade.

Quando a chuva passou, agasalhou-se num canto solitário e lá achou o juízo, arrependido de tê-la abandonado.

Então recompôs-se, pois o dia apontava renascendo, ensolarado.

Pelos olhos alheios

Lá vai o palhaço passando
Mulher, filho e fome
O olhar nos ares
E também os malabares
O circense
Vai passando parado
No que eu exigiria crescente

Lá vai a família estrelando
Ares de necessidade
Atravessando aros
Para esconder o tropeçado
O saltimbanco
Lá vai o tempo passando corrente.
E eu, vendo o palhaço carente.

E lá vou eu também carente
Mas do que há de lúdico
E vou morrendo dormente
[Caminhando cego com a pressa
Veemente.]
por não entender que o palhaço
é intenso, independentemente.