domingo, 5 de novembro de 2017

Haicais de estação

ou Para Bordar. 
para minha querida Fátima Pombo, que tem os mais lindos bordados do mundo. 


O verde esborra
Como fonte na paisagem.
Primavera jorra!

                            Tudo sobe vivo:
                            Caule, folha, flor, inseto.
                            Verão colorido!

No outono forte
         Tudo começa a cair...
     Do verão, a morte.

                                                                   Pedra, pau e bicho.
                                                                      Tudo repousa calado.
                                                               O inverno é rijo. 

domingo, 19 de março de 2017

Ouriço do mar




Ouriço do mar no coral
Submerso, rasteiro e denso
Pouco se move, em geral
E quando move, anda lento

Vai cauteloso e mergulhado
Se escondendo no escuro
Esconde o que há guardado
Na crosta de espinho duro

Ouriço do mar espinhento
Parece até perigoso
Mas tem é um medo imenso
Do que há afora do alojo

O espinho é só escudo
Recurso de frágil soldado
Pois guarda sutil conteúdo
Por dentro de osso delgado

Ouriço do mar no coral
Espeta e fere com espinho
Quisera não fazer mal
E ter por escudo o carinho. 




Flor dada

Flor dada,
brotada
ao vento.


Flor viva:
lascívia
e intento. 


Se ausência: 
carência
e lamento.


Se inseto:
amor certo
e alento. 



.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Um segredo no minério

No interior da terra há escuridão
E um canto onde o sol já não alcança
Está ausente toda luz da imensidão
Tudo ao denso e ao escuro se avança

Luz não chega e o ar se põe escasso
Na sequência vão as cores, se retiram
As nuances e os tons são pouco vastos
Só marrom e preto e cinza que se miram

Nada salta a primeira olhadela
Tudo se parece lúgubre e estéril
Mas se omite, lá, discreto, com candela
Um segredo submerso no minério

Entre a massa mineral está por certo
Algo a mais que se enfurna sob o chão
Para se fazer deveras descoberto
É preciso árdua mineração.

Enfiado e contido no rochedo
Algo precioso em físico se imprime
Escondido entre as pedras, os penedos
E as penhas mora algo de sublime

Algo brilha, e cintila, e resplandece
Colorido. Leitoso ou transparente
E em nada com o escuro se parece
Mais reporta ao que há de reluzente

De vivaz, de sutil e de divino
Qualidades provindas de outro canto
E parece que recolhe, comprimindo,
Um punhado de centelhas do encanto

Será luz que por dentro a terra espelha
Refletindo do céu o mais brilhante?
Ou será que sob o chão pousam estrelas
Que se deram humildemente ao alcance?

Como pode claridade sob o mundo?
No escuro ter colorido império?
Escavar e achar cor bem lá no fundo
Só pode fazer parte de um mistério!

sábado, 10 de dezembro de 2016

Der Winter

Inverno bem rigoroso,
tudo se faz resfriado.
Recolhe-se a paisagem,
tudo se queda parado.

Retira-se cada bicho,
contrai-se cada planta.
Resta sobre o caminho
nada que se levanta.

Tudo coberto em branco,
envolto e enrijecido.
Estático e congelado
o que foi pulsante e vivo.

O gelo traz a dureza,
firmeza, tensão, ringir.
E mora em tudo que é rijo
o risco de se partir.

Repousa então a existência
pedrada em seu lugar.
Ralenta toda a cadência
Cuidando pra não quebrar.

Sem luz e calor do sol
nada consegue expandir.
Eis que no intenso inverno
melhor é deixar dormir.    

Witten, Alemanha.  


sábado, 22 de outubro de 2016

LAGARTA FIRMAMENTO

Impulso tem a lagarta,
com o corpo a tatear...
Tanto trabalho no chão,
para um dia se alçar.

Que força tem a lagarta
pra querer se transformar.
Ainda sem ter suas asas,
almeja um dia voar.

Junta o preciso, a lagarta,
pra metamorfosear.
Em que será que se firma
para não pestanejar?

Rasteja densa, a lagarta.
Pesada até se quedar.
Então pousa longo tempo,
parada num só lugar.

Labuta a muda, a lagarta
 – distante do que será –
mesmo sem ter ido ao céu,
nem saber o que passa lá.

Se empenha em ter, a lagarta,
jeito de se pendurar.
Fecha-se em canto só dela,
se aninha em restrito lar.

Silêncio afora. Ninguém.
Parece só descansar.
Mas dentro faz a si mesma,
de asas, um belo par!

Trabalha no vir a ser.
Distinta renascerá.
Se antes pesada e lenta,
leve e sagaz ficará.

Um dia, bela surpresa!
Da casca sai devagar.
Sai em cor a borboleta,
tingida, fina e solar!

Quiséramos ser lagarta
e somente acreditar.
Trabalhar árduo na terra,
e um dia, simplesmente, ar!




domingo, 16 de outubro de 2016

Beira de borboleta


Ao pé do penhasco, pessoa.
Avante, um colorido ar.
São borboletas das intocáveis,
e alguém a observar.

Pessoa parada na beira,
atenta para não tombar.
Mirando, discreta, as cores:
deslumbre vivo a adejar!

Tão lindas as borboletas!
Quem dera poder tocar.
Mas desfiladeiro abaixo,
tão pouco pode avançar.

Espia o caminho que veio.
Para trás poderia andar.
Mas lá não há borboletas.
Quisera nunca voltar!

Estanca ao pé do barranco
a pessoa a quimerar...
Mas que grandioso exercício
(e árduo): só contemplar!